Entrevista: A importância da Responsabilidade Social para o público interno

Por Karen Pegorari Silveira

Segundo o Instituto Ethos, o funcionário é um dos mais importantes stakeholders da empresa e atuar de forma socialmente responsável com este público significa mais do que respeitar os direitos garantidos pela legislação, significa investir no seu desenvolvimento pessoal e profissional, assim como oferecer sucessivas melhorias nas suas condições de trabalho.

A especialista em diversidade e nossa entrevistada do mês, Liliane Rocha*, acrescenta ainda que implantar uma agenda estratégica de Responsabilidade Social com o público interno é uma das melhores formas da empresa sinalizar para os seus colaboradores que existe uma atuação em prol da comunidade, e que se importam com as causas relevantes do município, estado ou país em que estão instaladas.

Leia a entrevista na íntegra:

Por que uma empresa deve considerar o público interno como um dos seus principais stakeholders?

Liliane Rocha – Para assegurar a sua sustentabilidade, perenidade estratégica ao longo do tempo, a empresa precisa garantir um excelente relacionamento com todos os públicos com os quais se relaciona. E neste sentido, o público interno (colaboradores e funcionários) é a força motriz impulsionadora da empresa, a materialização de uma estrutura e cultura organizacional que constrói a cada dia o patrimônio da empresa.

É o público interno a face da empresa junto a todos os demais stakeholders, tais como, fornecedores, clientes, formadores de opinião entre outros. Portanto, viabilizar mecanismos para que esse público esteja engajado, motivado e alinhado aos princípios das organizações é fundamental.

Quais ações de responsabilidade social para o público interno uma empresa pode implantar?

Liliane Rocha – Implantar uma agenda estratégica de Responsabilidade Social com o público interno é uma das melhores formas da empresa sinalizar para os seus colaboradores que existe uma atuação em prol da comunidade, e que se importam com as causas importantes do município, estado ou país em que estão instaladas. Algumas das iniciativas mais comuns são:

Programa de Voluntariado: Realizar um Programa de Voluntario no qual os colaboradores estejam convidados a atuar em uma causa social relevante. Neste caso a empresa desenvolve uma estrutura que convida, estimula e apoia o colaborador a atuar em parceria com organizações sociais, associações comunitárias e outros grupos para, juntos com atores da sociedade, promover uma transformação social relevante e exercitar a sua cidadania. Essas iniciativas funcionam como verdadeiros team bulding e por isso, além de gerar um bem para a comunidade e fortalecer a reputação da empresa junto a sociedade, ajuda também a desenvolver talentos e ampliar a percepção do público interno da empresa.

Doações: Doações pontuais de materiais diversos ou mesmo em recursos financeiros (normalmente neste caso a empresa entra com um match de 1 para 1) também são formas comuns e simples de envolver o público interno. Em geral as empresas mobilizam ações como essa em situações de grandes catástrofes ambientais.

Reciclagem: Ações de reciclagem quando bem coordenadas possibilitam trabalhar com o colaborador o aspecto da preservação ambiental, atrelada a inclusão social, caso os resíduos sejam doados para uma cooperativa de catadores.

Diversidade: Quando a Valorização da Diversidade é trabalhada na empresa, é possível educar os colaboradores para aspectos importantes de direitos humanos e grupos sociais que estejam historicamente sendo privados de direitos básicos, comprovados estatisticamente, evidenciando questões de gênero, etnia, pessoa com deficiência, entre outros.

Essa atuação promove a melhoria das relações e senso de pertencimento de todos os funcionários e favorece a ampliação de seu senso crítico e social diante da sociedade.

Como engajar os colaboradores nestas ações?

Liliane Rocha – A primeira atividade de Responsabilidade Social que a empresa deve fazer é iniciar uma reflexão estratégica. Dado o negócio da empresa, o cenário do mercado, a localidade em que a empresa está inserida e as questões sociais mais latentes o que é viável que a empresa faça para gerar impacto social.

Após essa reflexão a área deverá definir em que linha de atuação irá focar esforços, estruturar as iniciativas escolhidas e, se possível, avaliar aderência junto a um pequeno grupo de pesquisa, bem como o entendimento da alta liderança da empresa com as linhas de atuação escolhida. Isso porque para engajar os colaboradores todo o apoio será muito bem vindo e é importante obtê-lo desde a concepção.

Após esse alinhamento será possível partir para um plano de comunicação com foco em sensibilização, utilizando ferramentas de comunicação, estimulo da liderança da empresa, por vezes em diálogos e informações gerais sobre os temas de trabalho propostos. Convidando o colaborador para ter uma atitude pró ativa de transformação, ganhará a sociedade, a empresa e, principalmente, o próprio indivíduo ao se converter em um agente protagonista de transformação da sociedade.

Quais os benefícios para os colaboradores e para a empresa?

Liliane Rocha – Os colaboradores têm ganhos expressivos ao contribuir para uma causa social relevante para a sociedade, por vezes na qual ele mesmo está inserido. E além disso, será capacitado a ampliar os seus conhecimentos sobre um determinado tema (voluntariado, diversidade, doações, reciclagem, entre outros) de ação social e as formas mais eficazes de promover transformação. Além disso, ele amplia sua visão de mundo ao vivenciar diferentes realidades.

Ao atuar com a empresa, o colaborador recebe o apoio de estrutura, conhecimentos e estratégias propostas por uma equipe especializada dentro da empresa, desenvolve e exerce novos talentos e habilidades.

A empresa por sua vez fortalece a sua reputação e imagem junto ao público interno e externo, bem como conquista o colaborador como aliado estratégico em seu planejamento de impacto social.

Há dados de estudos e pesquisas que comprovem estes benefícios? Quais?

Liliane Rocha – Há diversos estudos em todas as linhas que comentamos aqui. Para dar alguns exemplos: Há um estudo do Ibope de 2012 chamado Voluntariado empresarial no Brasil III que nos traz algumas informações muito relevantes. Em 82% das empresas pesquisadas existe um setor responsável pela gestão do voluntariado. E em 58% dos casos esse setor é a área de Responsabilidade Social. Também é possível ver que 70% das ações focam na área de educação, um tema crucial para o país.

Os benefícios para as empresas também são sinalizados nesta pesquisa” Para as empresas pesquisadas, os principais benefícios gerados e percebidos pelas ações sociais são a melhora de suas relações com a comunidade e a consolidação de valores éticos no seio da organização: 90,3% em ambos os casos. Enquanto em 2010, esses percentuais ficaram em 93,8% e 95,3%, respectivamente. Outros benefícios, tais como favorecimento do trabalho em equipe e melhora da imagem institucional da empresa, também obtiveram percentuais expressivos nas pesquisas de 2010 e 2012, consolidando a tendência de que o voluntariado empresarial é um “ganha-ganha”, em que todos os envolvidos são beneficiados por suas ações.”.

Saiba mais – Pesquisa Perfil do Voluntariado Empresarial no Brasil III – 2012.

Em Diversidade, outro bom exemplo, costumamos usar o Perfil social, racial e de gênero das 500 maiores empresas do Brasil elaborado em 2010 pelo Instituto Ethos. Este estudo mostra, entre outros, que 33% do quadro geral das empresas e composto por mulheres e quando subirmos para a liderança elas são 13%. E que negros compõe 31% do quadro funcional e 5% do quadro de liderança. Bem como grandes partes não chegam a comprimir a legislação de pessoas com deficiência.

Veja – Perfil das Social, Racial e de Gênero das 500 maiores empresas do Brasil

Estes estudos são atualizados ao longo do tempo, mas apoiam as empresas em reflexões e análises críticas que colaboram com a construção de programas mais eficazes.

São diversos os estudos da McKinsey, Bain Company e Valor que evidenciam os benefícios para as empresas que investem em Diversidade. Há, por exemplo, um estudo da McKinsey de 2010 realizado com 180 empresas de capital aberto da França, Alemanha, Reino Unido e Estados Unidos que aponta que aquelas que tem uma equipe mais diversa na liderança atingem até 53% ROE (Return On Equity ou em português: Retorno sobre o Patrimônio). A ROE é um indicador financeiro percentual que se refere à capacidade de uma empresa em agregar valor a ela mesma utilizando os seus próprios recursos.

*Liliane Rocha é diretora executiva da Gestão Kairós, consultoria especializada em Responsabilidade Social e Diversidade.