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ENTREVISTA: JOSÉ LUIZ EGYDIO SETÚBAL


O pediatra e presidente do conselho da Fundação José Luiz Egydio Setúbal comenta sobre Investimento Social e a cultura de doação no Brasil

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Por Karen Pegorari Silveira

publicado em 06 de março de 2018

O Investimento Social Privado é o repasse voluntário de recursos privados de forma planejada, monitorada e sistemática para iniciativas e projetos de interesse público, podendo ser incentivados, ou não, por renúncia fiscal. Incluem-se neste universo as ações sociais protagonizadas por empresas, fundações, institutos, comunidades ou indivíduos.

Na opinião do presidente do conselho da Fundação José Luiz Egydio Setúbal, que também comandou a Santa Casa de São Paulo, o Brasil deveria ter leis para favorecer as doações, como por exemplo uma política para Fundos Patrimoniais (endowment), que poderia contribuir enormemente com museus, universidades, Fundações etc.

Leia na íntegra a entrevista:

No Brasil grande parte das quase 340 mil entidades da sociedade civil organizada (fundações privadas e associações sem ­fins lucrativos) depende de recursos de projetos propostos ao governo e às empresas, pois não existe uma cultura de doação individual – e que poderia ser uma fonte importante de captação. Em sua opinião, por qual motivo os brasileiros não consideram sua responsabilidade de doar ou destinar seus impostos a essas organizações?

José Luiz – Discordo um pouco dessas afirmações. Por pesquisas feitas (http://idis.org.br/pesquisa-doacao-brasil/) mostram que a população doa mais do que as empresas. Mas concordo que boa parte das ONGs dependem do governo para sua sustentabilidade. Acredito também que os brasileiros mais ricos doam menos do que podiam e muitas vezes usam de benefícios fiscais para fazer suas boas ações, mas não entendo isso como doação, uma vez que é um direcionamento do imposto para uma causa que você ou sua empresa desejam ajudar. O dinheiro na verdade é do Estado, já que seria imposto a ser pago.

As pessoas comparam muito com os EUA, mas a doação lá se dá por muitos motivos e eles culturalmente são muito mais envolvidos com suas comunidades. Por lá há doação de bens materiais, mas também de tempo em trabalhos voluntários, por exemplo.

Neste caso, como é possível mudar o cenário? Como os EUA conseguiu chegar nos mais de 300 bilhões de doações anuais, por exemplo?

José Luiz – Gosto de usar % do PIB em vez de números ou valores, já que as economias são muito diferentes em escala. Como disse anteriormente, não devemos copiar tudo dos EUA ou da Europa, pois são culturas diferentes, têm soluções diferentes para problemas similares. Acredito que deveríamos ter leis que favorecem as doações como por exemplo uma política para Fundos Patrimoniais (endowment) que poderiam favorecer enormemente museus, universidades, Fundações etc. Ter políticas claras sobre os objetivos de se constituir uma ONG que depende do governo para sobreviver, o que gera relações com conflitos de interesses e acabam por construir um enorme passivo social já que elas não ajudam a resolver os problemas.

Quais são as vantagens para quem realiza o investimento social privado?

José Luiz – Posso responder por mim, já que imagino que cada um tenha sua motivação. A primeira coisa que teria a dizer é que não há vantagem financeira, não é um investimento que trará retorno financeiro, mas sim social. Muitas vezes é difícil para um empresário, um industrial, comerciante ou banqueiro entender isso. O que me move é uma atitude cidadã, sentir partícipe de sua comunidade e ajudá-la a crescer como um todo. Se minha comunidade estiver bem ou melhorando, eu também estarei bem e melhorando. Precisamos parar de pensar como indivíduo e passar a pensar como uma comunidade, um bairro, uma cidade, um estado e um país. O investimento social privado deve ser um agente que colabora com o Estado, ajudando a fazer as políticas públicas que os governos sozinhos não conseguem.

Do ponto de vista das organizações, quais os desafios enfrentados para receber o investimento social privado?

José Luiz – Boa parte das organizações é muito pequena e sem suporte técnico para orientação. A gestão é fraca e não existe preocupação com Governança. Com todas essas mazelas não conseguem entender a legislação, dependem muitas vezes de trabalho pro bono que nem sempre é feito com o devido cuidado. Como falta dinheiro para tudo, muitas vezes fogem da Missão e da Visão. A gestão, em geral, é muito amadora e na crença de que com boa intenção e boa vontade se consegue tudo. Vivi isso na Santa Casa de SP, que é longe de ser pequena, mas tem todos esses problemas.

Recentemente vem acontecendo uma transformação no pensamento administrativo, que propõe o valor compartilhado, ou seja, a geração de valor econômico de forma a criar também valor para a sociedade (com o enfrentamento de suas necessidades e desafios). O Brasil já tem exemplos de empresas que incorporaram este princípio?

José Luiz – Posso citar o Hospital Sabará, ele é gerido como um hospital privado, deve gerar valor e ter resultados. A diferença é que ele pertence a uma Fundação que utiliza seus resultados para fazer cumprir sua Missão que é voltada para saúde infantil.

Existe um grande número de empresas que tem este fundamento e não faz parte do terceiro setor, o próprio Banco Itaú na apresentação de seus resultados de 2017 publicou em todos os grandes jornais de São Paulo sua contribuição para sociedade nas mais diversas áreas. Na saúde temos iniciativas como Dr. Consulta, na habitação Muhammad Yunus – prêmio Nobel de economia com o microcrédito – criou a Yunus Negócios Sociais e a Artemísia, que também faz intermediações de negócios sociais no Brasil – dando orientação e até ajudando na divulgação e financiamento. Existem muitos outros exemplos.