Entrevista: Desafios e Benefícios na Implementação da Agenda 2030

Por Karen Pegorari Silveira

Nesta entrevista, o Professor Doutor em Economia, Gustavo Andrey Fernandes, pesquisador nas áreas de políticas públicas – especialmente nos temas de Educação e Desenvolvimento, discorre sobre os desafios e benefícios da implementação dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) na estratégia dos negócios.

Para ele, não se estabelece um processo produtivo mais sustentável sem envolver as diversas peças que compõem a cadeia produtiva, assim como consumidores e fornecedores.

Leia Mais na íntegra da entrevista:

Por que as parcerias são importantes para a implementação dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS)?

Gustavo Andrey – Os ODS representam uma agenda de transformação para o mundo muito mais ampla do que a Agenda 2015. É um desafio dobrado para empresas, governos, cujo resultado, se alcançado, estabelecerá um novo patamar para toda a humanidade. A Agenda 2030 propõe um conjunto de metas que vão desde processos produtivos mais eficientes, aperfeiçoando o uso de nossos recursos naturais, até a forma como lidar com as pessoas, dentro da empresa e fora. Em linhas gerais, é a humanização de relações entre pessoas e empresas, sem perder o sentido econômico inerente à produção. Neste sentido, uma agenda tão ambiciosa como os ODS torna explícito um atributo fundamental do processo de desenvolvimento que é a cooperação. Não é possível integrar, reduzir desigualdades, seja de gênero ou racial, sem unir os diversos atores envolvidos nesse processo. Ao mesmo tempo, não se estabelece um processo produtivo mais sustentável sem envolver as diversas peças que compõem a cadeia produtiva, assim como consumidores e fornecedores. E para isso, parcerias são fundamentais.

Que tipos de parcerias podem ajudar as empresas a implantarem alguns dos ODS e como elas podem ser conduzidas?

Gustavo Andrey – Pela natureza ampla e diversa dos ODS, há possibilidade de todo o tipo de parceria. Desde trabalhos em conjunto com o setor público, com ONGs e obviamente, parcerias entre empresas. Vamos pegar um exemplo concreto. A Agenda 2030 não vai abolir a inovação como uma variável fundamental para o sucesso dos negócios. No entanto, ela estabelece novos horizontes. Eliminar diferenças de gênero no local de trabalho é uma meta explícita e para isso, é preciso inovar no local de trabalho. Uma empresa pode ganhar muito ao estabelecer parcerias com ONGs que trabalhem a questão de gênero, acelerando seus passos nessa direção. E qual o resultado disso? Uma vantagem comparativa importante, pois a empresa passa a atrair melhores funcionários o que, indiretamente, impactará positivamente os negócios.

Pode nos dar exemplos de parcerias de sucesso já realizadas para inserir os ODS na estratégia dos negócios?

Gustavo Andrey – Há inúmeras iniciativas de grande importância sendo realizadas. O Pacto Global é sem dúvida uma delas e já vem produzindo excelentes resultados como indutor de transformações. No caso brasileiro, por exemplo, a ampla discussão sobre medidas anticorrupção e boas estratégias de compliance entre empresas e academia estão mudando a forma como nós fazemos negócios. A trocas de experiência, a produção de material, divulgação, o debate, estão produzindo uma verdadeira revolução. É importante destacar que isso não aborda apenas as empresas que foram de alguma forma atingidas diretamente pelas investigações. É uma mudança de mindset.

Quais os principais desafios encontrados para a implantação dos ODS nas empresas?

Gustavo Andrey – Acredito que o principal desafio seja internalizar a Agenda 2030 entre todos os colaboradores da empresa, permitindo que novos horizontes sejam percebidos. O salto dos ODM para os ODS foi muito ambicioso, de modo que, é preciso agora concretizar esse avanço dentro da firma. Seguramente, as pessoas irão se identificar com esses goals. A partir desse momento, aparece o que eu chamo de segundo desafio: criar a possibilidade de inovação dentro da firma para alcançar os ODS. É preciso não apenas entender os ODS, mas também criar a possibilidade de que algo seja feito.

A implementação bem-sucedida dos ODS resulta em quais benefícios para as empresas e sociedade?

Gustavo Andrey – Daqui para frente, não vamos apenas consumir um produto, mas uma concepção, uma ideia mais elaborada que vai além do produto em si. Isto envolve toda a cadeia produtiva, a forma como os colaboradores são tratados dentro da empresa. Muito além, isto envolve a própria visão que a empresa passa de mundo. Veja o exemplo das empresas com problemas de trabalho escravo nos seus fornecedores. A perda de clientes é imediata. É preciso, portanto, entender, que os ODS trazem novos horizontes para que as firmas inovem e alcancem vantagens competitivas. É uma Agenda de mercado também. Não podemos apostar daqui em diante, as pessoas se tornarão menos cientes das possibilidades do mundo ou mesmo indiferentes. Pelo contrário, o consumidor do século XXI é muito mais exigente e sintonizado no mundo. É essa revolução dentro das empresas que irá revolucionar toda a sociedade. Os benefícios, portanto, para a comunidade em geral são enormes. Contudo, apenas as empresas mais preparadas irão fazer parte disso. Os ODS estão aí, é preciso agarrar essa agenda de oportunidades!