Artigo: Voluntariado Agrega Valor

Os artigos assinados não necessariamente expressam a visão das entidades da indústria (Fiesp/Ciesp/Sesi/Senai). As opiniões expressas no texto são de inteira responsabilidade do autor

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*Por Marcos Paulo dos Reis

Essa frase “agrega valor” por um tempo foi banalizada, por estar associada a futilidades da vida noturna, de jovens de classe média e alta que preferiam estar em áreas “vips” de “baladas” paulistanas por “agregar valor” a “balada”.

Voluntariado não tem nada que ver com glamour, com “balada”, com noitadas, mas tem tudo a ver com “agregar valor”.

“Agregar valor”, no jargão comercial, está relacionado a acrescentar inovações, valores, é diferenciar aquilo que é colocado no mercado, de modo a satisfazer o cliente. O Dicionário da língua portuguesa afirma que agregar é um verbo transitivo que significa juntar com o outro, reunir a algo já existente.  Por exemplo: agrupar pessoas, incorporar novas ideias, novas técnicas, inserir novos elementos, novas informações e novos conceitos etc.

Há muito tempo, as empresas criam programas que buscam reter seus talentos e atrair pessoas para seus quadros de funcionários ou colaboradores, onde vão desempenhar por muito tempo funções diversas nas mais variadas áreas. É oferecido para esses novos contratados um cardápio de opções que são consideradas benefícios, às vezes incorporadas a salários, para que essas pessoas não somente tenham desejo de trabalhar ali, mas também dar o melhor de si para aquela companhia. Pessoas de alta performance, ou seja, que tenham uma alta produtividade e que seu trabalho tenha qualidade.

Existem muitas formas de reter e de atrair pessoas para uma empresa, como bons salários, as vezes acima do mercado, ótimos planos de saúde, seguro de vida, excelentes cestas de benefícios que variam de valores financeiros, a passeios com a família, atividades radicais esportivas, viagens de navios, experiências gastronômicas, etc.

Hoje já existem empresas que tem visto no voluntariado, uma excelente forma de benefício, para reter e atrair essa pessoa para sua companhia. O voluntariado já pode ser considerado uma excelente forma de “agregar valor” e tem atraído jovens para companhias com olhares humanos e modernos dentro da sociedade. Informar ao candidato que a empresa possui um programa de voluntariado e que se esse candidato se decidir por essa ou aquela vaga, ele terá a oportunidade de se desenvolver socialmente, de ter experiências em comunidades que raramente uma pessoa se dispõe a ir por sua própria vontade e organização, a ter contato com grupo de pessoas que estão mudando o mundo para melhor – essa pessoa é convidada a não somente a crescer financeiramente, e a ter uma carreira profissional brilhante e de sucesso, mas a escrever uma história de participação social e cidadã.

O outro lado muito interessante da mesma moeda é o “agregar valor” a Empresa a qual esse empregado está. Uma empresa que possui em seu quadro pessoas que tem as características de um voluntário tem muito a ganhar, tanto do ponto de vista da reputação quanto da humanização. Já é sabido que um voluntário é uma pessoa mais aberta à novidades, ela por estar em contato com ações humanizadoras e de auxílio a quem mais precisa, se torna uma pessoa mais atenciosa, escuta melhor, e tem mais facilidade para se colocar no lugar do outro. O Voluntário, por estar em contato com muita escassez, aprende como ninguém a viver na adversidade, a trabalhar com menos e se torna também resiliente, sem falar no espírito empreendedor que todo voluntário pratica por natureza da própria atividade, que sempre busca fazer mais com menos, atuar com e na adversidade, lidar com emergências e em situações extremas, buscar alternativas, entre outras ações.

Toda empresa busca formar ou atrair bons líderes, que saibam gerir equipes, que sejam bons ouvintes, e, sobretudo inspiradores. No voluntariado, as pessoas têm muitas oportunidades para desenvolver suas capacidades e habilidades de liderança, pois participa de equipes auto gerenciáveis, ou ajudam a gerir equipes de voluntários, que não realizam as atividades por obrigação, mas fazem de forma natural, geralmente coordenada, e sempre voluntária. Essa disposição para fazer algo que se quer e de forma livre, às vezes é uma característica desafiadora para quem lidera, pois não tem sob sua responsabilidade pessoas submissas, mas iguais, que precisam de ser lideradas muito mais pela inspiração e pelo exemplo e serem lideradas muito mais pelo convencimento e pela paixão.

Na atual crise em que estamos vivendo, muitas empresas estão colocando muita expectativa em seus grupos de voluntariado, pois são eles que em uma crise, erguem a cabeça, e sabem que podem sair daquela situação – essas equipes têm convivido com exemplos vivos de pessoas que vivem e passam muito tempo em crise, e que precisam ser resilientes para sobressair  em situações adversas. O Voluntário em uma empresa, geralmente é aquele que sorri, cumprimenta todo mundo, se importa com os colegas, tem um índice de produção muito acima da média, pois sua consciência para com o outro faz dele um profissional melhor, que não se escora, que busca o interesse do outro e se preocupa com o bem estar de todos.

A empresa que deseja ter mais que funcionários e empregados, mas que buscam verdadeiros fãs, também tem o beneficio do voluntariado, como uma excelente forma não somente de reter o seu colaborador, mas também como forma de desenvolver essa pessoa, para sua empresa, para sua comunidade e para a sociedade em que está inserida. Esse colaborador será com certeza um cidadão melhor, que vota melhor, que se importa com os problemas da cidade, que não culpa o outro, mas que se coloca no centro das causas e como ator das mudanças, e não como vítimas. Em uma crise como nós estamos vivendo, o voluntariado é a boa notícia que tanto a empresa busca, é a história de vida, que tantos querem contar, é o legado que muitos gostariam de deixar para os que estão vindo e para os que ainda virão.

“Agregar valor” na empresa por meio do voluntariado, é de fato trazer um novo elemento, é inserir uma nova ideia que pode revolucionar a prática da gestão das pessoas, é ver as pessoas em sua completude, não somente como um “bom profissional”, “competente” e um “excelente técnico”, mas é saber que a pessoa humana, em seu todo, formada de muitas partes, também precisa viver experiências sociais, que o voluntariado propicia. A busca por essa humanização nas administrações empresariais não é uma moda, ela é uma nova prática que precisa ser entendida e adotada, se as empresas querem construir uma história de êxito no seu trato com as pessoas que de fato constroem uma empresa, que se dedicam a gerar valor para essa empresa, que vendem os produtos dessa empresa, que se relaciona com seus clientes, que produzem, que fabricam que comercializam seus produtos e seus serviços.

O Voluntario, é a boa notícia que está faltando para que a empresa agregue ainda mais valor a sua história, uma história que merece ser vivida e compartilhada.

A sua atitude diante da possibilidade de ter e desenvolver ações de voluntariado em sua empresa precisa estar fortemente alinhado a crença de que:

  • O voluntariado é uma excelente ferramenta de atração e retenção de talentos;
  • O Voluntariado é uma grande oportunidade de desenvolver e capacitar seus colaboradores;
  • Colaboradores e funcionários serão muito mais humanos e cidadãos quando praticam voluntariado;

O melhor caminho para começar já essa revolução, e “agregar valor” ao seu negócio:

  • Divulgue e publique sua intenção quanto a realizar um programa de voluntariado em sua empresa;
  • Convide seus colaboradores para que o ajude a desenhar as ações de voluntariado e a escolher as atividades que eles mais gostarem;
  • Dê apoio para que as ações sejam realizadas;
  • Reconheça os voluntários e dê visibilidade as suas ações;
  • Invista tempo, talento e dinheiro em voluntariado;
  • Faça gestão de todas essas ações de voluntariado;

*Marcos Paulo dos Reis é consultor em Gestão no Terceiro Setor, formado em Gestão de Recursos Humanos com MBA em Gestão e Empreendedorismo Social pelo CEATS/FIA. Atuou como coordenador de Voluntariado do Grupo Telefônica/Vivo no Brasil. Possui consolidada vivência em planejamento estratégico e na gestão de equipes presenciais e à distância.