Artigo: A crise reclama um novo projeto de Brasil, sustentável e de longo prazo

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Por Rogério Baptistini Mendes*

Não é fácil uma sociedade conquistar o progresso econômico e social a que damos o nome de desenvolvimento. Sobretudo, quando os requisitos ao crescimento econômico não estão presentes internamente e o cenário externo é desfavorável. Nestes casos, o desemprego, a pobreza e
seus correlatos se tornam mais visíveis e quebram as expectativas sociais. É quando há relutância no mercado e a sensação de fracasso passa a alimentar o que chamamos de crise.

Hoje, diante de uma crise que parece consumir cerca de 10 milhões de empregos no país, uma solução emergencial, com potencial de reverter expectativas pessimistas, poderia ser o aumento do gasto público em obras de infraestrutura, setor que denuncia o atraso brasileiro e obstaculiza um surto vigoroso de crescimento econômico.  Conforme o modelo teórico mais simples, ao aumentar os gastos públicos em um período de recessão, o governo cria empregos e a renda desses novos trabalhadores passa a alimentar a demanda, gerando um ambiente favorável ao reinvestimento privado. Porém, as coisas não são fáceis e esquemáticas assim. E a experiência nos mostra que até as políticas governamentais tidas como benéficas tendem a falhar.

A atual crise brasileira traz ainda um complicador, que se apresenta no fenômeno da desindustrialização. Como é sabido, o que o país conquistou em termos de desenvolvimento, ao longo do século XX, foi graças ao processo de industrialização da economia. Nas sociedades centrais, como a norte-americana, por exemplo, a retração da produção e do emprego fabril implicou em uma mudança para um tipo de sociedade pós-industrial, na qual o setor terciário cresceu e as indústrias reorientaram os seus ciclos para bens de tecnologia cada vez mais elevada. E esse, definitivamente, não é o nosso caso!

Retomar o crescimento econômico, condição sine qua non para o desenvolvimento, pela sua magnitude, depende de um projeto coletivo. Sem este, não é possível frear a desindustrialização e vencer a pobreza e o desemprego.  E é exatamente neste sentido em que o governo atual fracassa.

Ao submeter o destino dos brasileiros à visão ideológica de um grupo, o governo fez do Estado, em sua forma de ação e tamanho atual, um ente avesso ao mercado, penalizando não só os empresários – da indústria, em particular- mas, sobretudo, os trabalhadores, que perdem acesso aos empregos de melhor qualidade.

Como ao fim e no limite o Estado é uma sociedade política da qual todos somos partícipes, a saída para reencontrar o caminho do desenvolvimento, com justiça social e democracia, reclama a participação em torno de associações e lideranças. São estas que vão construir um projeto coletivo com legitimidade para alimentar a nossa confiança e, com isso, dia após dia, com nosso trabalho, criatividade e empenho, permitir que transformemos o fracasso atual em oportunidade para a criação de novos negócios que gerem emprego e crescimento econômico.

A crise gera incerteza, mas este é o momento em que um novo projeto de Brasil pode ser gestado, a partir da atuação de líderes criativos e plásticos o suficiente para conduzir a reinvenção em torno de uma proposta sustentável e de longo prazo.

 *Rogério Baptistini Mendes é Sociólogo e professor na Universidade Presbiteriana Mackenzie.