ARTIGO: OS EMPRESÁRIOS, A EDUCAÇÃO E UM PROJETO DE BRASIL NOS MARCOS DOS ODS

Os artigos assinados não necessariamente expressam a visão das entidades da indústria (Fiesp/Ciesp/Sesi/Senai). As opiniões expressas no texto são de inteira responsabilidade do autor

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*Rogério Baptistini Mendes

 Ao pensar na contribuição do Comitê Brasileiro do Pacto Global para a Agenda 2030, na integração dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) na estratégia empresarial, sobretudo quando nos referimos ao item Educação de Qualidade, não podemos deixar de fazer um rápido balanço de nossa evolução histórica e social. Afinal, carregamos as marcas de um passado de atraso e exclusão, que penalizou sobremaneira o andar “de baixo” da sociedade, conduzindo a uma modernidade inconclusa, carregada de pedaços inteiros do passado que pretendeu superar. Basta atentarmos para a distância entre os ricos e os pobres, para a paisagem urbana dos grandes centros, para os indicadores de saúde e educação e teremos um exemplo vivo de quão distantes estamos de ser uma nação moderna e democrática.

A vasta bibliografia acadêmica produzida sobre o subdesenvolvimento, a revolução burguesa e a modernização, o capitalismo tardio e a dependência econômica, apesar de datada, nos dá pistas para a compreensão dos males herdados e dos desafios que eles impõem ao país em termos de integração competitiva ao mundo global. E, neste século XXI, demonstra como os problemas se sobrepõem, com a herança do passado mal resolvido embaraçando a resolução dos novíssimos dilemas trazidos pela contemporaneidade da tecnologia, da sociedade da informação, da dinâmica financeira do capital, da desindustrialização, num movimento societal global que há muito deixou de ser de afluência e passou, conforme a metáfora construída pelo ex-ministro da Educação e Senador Cristovam Buarque, a produzir “Mediterrâneos invisíveis”: muros que excluem os pobres e aprisionam os ricos (Cristovam Buarque. Mediterrâneos invisíveis, 2016).

Para nós, brasileiros, enfrentar o tema da Educação de Qualidade adquire relevância ímpar, pois o mesmo diz respeito ao tipo de sociedade que queremos ser e qual o lugar que buscamos ocupar no mundo deste século XXI. Se observarmos a educação apenas pelo viés instrumental e utilitário, é óbvio que a escolha política incidirá num tipo de povo e num lugar na hierarquia das economias nacionais. E é preciso que fique claro, a nação perdeu força como unidade de referência neste cenário globalizado, mas ela e o território continuam a definir vencedores e vencidos, a balizar o jogo de poder.  Neste sentido, quem educar, como educar e para que educar são perguntas fundamentais de um verdadeiro pacto político.

Em primeiro lugar, a universalidade do ensino primário e secundário, com conteúdos relevantes para a vida, nas dimensões pública e privada, intelectual e física, deve ser uma meta comum a todos os preocupados em fazer do Brasil uma nação democrática e competitiva economicamente. Nestes termos, a escola equipada, o professor bem preparado e o tempo integral são fundamentais, pois educação é uma relação social que reclama interação, convívio, cumprindo importante função de socialização. Parafraseando Edgard Morin, ela deve educar para a vida, “fornecer, estimular uma das missões de qualquer educação: autonomia e liberdade de espírito” (Edgar Morin. Ensinar a viver, 2015).  E parece óbvio que isso não se alcança quando se consideram determinados saberes inúteis, quando a relação professor-aluno e aluno-aluno é substituída pelo insulamento do discente diante do aplicativo, quando as atividades físicas são descoladas das atividades intelectuais e estudar se torna simplesmente decorar questões e roteiros pré-definidos.

A igualdade do acesso à educação não pode servir para transformar a educação numa mercadoria a ser explorada por grupos financeiros interessados no resultado imediato de seu investimento. No Brasil, políticas públicas mal construídas, controles confusos, financiamento público farto e demanda abundante, contribuíram para o crescimento da oferta privada de vagas no ensino superior, seja nas modalidades presenciais, híbridas ou à distância. O resultado, entretanto, não foi uma melhora qualitativa em termos de formação de mão-de-obra ou de produção de conhecimento. O sociólogo Wilson Almeida, em livro resultante de pesquisa sobre a privatização do ensino superior privado no Brasil, denuncia a baixa qualidade da formação, o enriquecimento dos investidores privados e o ônus ao Estado brasileiro. Uma equação que nada alvissareira (Wilson Mesquita de Almeida. Prouni e o ensino superior privado lucrativo em São Paulo, 2014).

Se quisermos atingir, de fato, as metas dos ODS, a estratégia empresarial deve considerar, sobretudo no setor industrial paulista, que cumpriu o papel de vanguarda do desenvolvimento brasileiro à modernidade, a obrigatoriedade de pensar um projeto de país e situar a educação neste projeto. Para os níveis primário, secundário e profissionalizante, há o excelente exemplo da rede escolar do Serviço Social da Indústria (SESI), particularmente de São Paulo, que merece ser protegido e ampliado. No nível superior, há que se avançar para parcerias com universidades que produzam conhecimento e façam mais do que simplesmente vender diplomas. Um projeto de país, reclama saberes que sejam capazes de formar cidadãos, tornar a humanidade mais humana, mais solidária, mais justa, mais inovadora e mais sustentável. E é isso que deve perseguir uma empresa responsável. O Brasil é possível e reclama o concurso da liderança empresarial, a participar ativamente da confecção de um projeto de país.

* Rogério Baptistini Mendes é Sociólogo, membro do Laboratório de Política e Governo da Faculdade de Ciência e Letras da Unesp (Campus de Araraquara) e professor do Centro de Ciências Sociais e Aplicadas (CCSA) da Universidade Presbiteriana Mackenzie.