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Artigo: Promoção da equidade étnico-racial, responsabilidade de quem?


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Os artigos assinados não necessariamente expressam a visão das entidades da indústria (Fiesp/Ciesp/Sesi/Senai). As opiniões expressas no texto são de inteira responsabilidade do autor

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*Por José Vicente e Daniela Pio

Nos últimos tempos, muito se tem discutido sobre ações afirmativas em prol da equidade étnico-racial no mundo corporativo. Mas de quem é a responsabilidade por fazer alguma coisa?  Como promovemos mudanças significativas e sustentáveis?

Muitos foram os movimentos e as ações afirmativas realizados no Brasil nas últimas décadas em prol da equidade étnico-racial, mas fato é que avançamos pouco até o momento. A quantidade de jovens negros fora das escolas de ensino médio ainda é muito grande, o percentual de pessoas negras que concluem uma graduação superior ainda é pouco representativo, a presença dos negros nos cargos gerenciais e executivos das grandes empresas ainda é ínfima.

Um círculo vicioso insiste em perpetuar: são recorrentes gerações de famílias negras vivendo na pobreza, com dificuldades de acesso e conclusão da educação, por isso com baixa qualificação para o mercado de trabalho, consequentemente com acesso aos empregos com baixa remuneração ou então com alto grau de dificuldade em empregar-se, que acabam vivendo em moradias precárias, expostos ao crime e à violência, e assim determinando como serão as gerações seguintes.

Ao classificar este cenário como um círculo vicioso, ratificamos que vivemos um processo no qual uma situação – o comércio transatlântico de escravos africanos – gerou consequências tão profundas que direta ou indiretamente conduzem os envolvidos recorrentemente ao estado inicial: uma desigualdade declarada.

Os poucos que conseguem escapar deste círculo vicioso são massacrados pelos vieses inconscientes construídos ao longo de 388 anos de escravidão no Brasil e outros 130 anos de uma liberdade altamente opressiva. Julgamentos intuitivos aprendidos culturalmente e que guiam nossas atitudes, fazendo que inconsciente e automaticamente as pessoas acreditem que uma cor de pele mais escura esteja associada à aspectos pejorativos.

Quando consegue ultrapassar os obstáculos da educação precária, da restrição ao trabalho operacional, comumente o profissional negro se depara com barreiras invisíveis do mercado trabalho, barreiras estas que podem ser traduzidas como racismo institucional, ou seja, os mecanismos de funcionamento das instituições em geral, fortalecem a discriminação. Um exemplo disso é o conceito de meritocracia aplicado como valor de muitas empresas. Fato é que, com tantas desigualdades estruturais não é possível aplicar na íntegra o conceito da meritocracia, logo, uma empresa que acredita na diversidade como estratégia de negócio, precisa repensar sua metodologia de gestão.

As políticas públicas têm a sua importância porque ratificam que a reparação é devida e que o tema precisa estar na pauta de todas as instituições, do acadêmico ao corporativo, do público ao privado, do formal ao informal; além de abrir portas, mesmo que por obrigação, para a reflexão.

Executivos e empresários têm, na promoção da igualdade étnico-racial, a oportunidade de exercitar seus valores relacionados à responsabilidade social e concomitantemente a oportunidade de fortalecer a sustentabilidade de seus negócios, afinal, já está mais que comprovado que a multiplicidade de opiniões e a pluralidade dos perfis profissionais amplia o potencial de inovação e melhora os resultados das empresas.

Superar os vieses inconscientes e quebrar este círculo vicioso é responsabilidade de todos nós, cidadãos deste país, pessoas de todas as cores e etnias precisam estar juntos na discussão das ações afirmativas. Relações étnico-raciais, racismo, injúria racial, viés inconsciente, são temas que precisam estar na pauta das conversas entre pais e filhos, nas rodas de amigos, nas reuniões de planejamento estratégico das empresas.

Precisamos acelerar esta mudança!

*José Vicente é fundador e reitor da Faculdade Zumbi dos Palmares, doutor em Educação, mestre em Administração e mestre em Direito. Daniela Pio é coordenadora do Núcleo de Diversidade, Empregabilidade e Empreendedorismo na Faculdade Zumbi dos Palmares, psicóloga, psicodramatista, com especialização em Gestão do Conhecimento e em Liderança e Gestão de Negócios.