Artigo: Produção e Consumo responsáveis: um objetivo para o desenvolvimento sustentável na indústria

Os artigos assinados não necessariamente expressam a visão das entidades da indústria (Fiesp/Ciesp/Sesi/Senai). As opiniões expressas no texto são de inteira responsabilidade do autor

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*Por Flavio Ribeiro

Em sua definição clássica, economia é a ciência que estuda a apropriação, conversão e uso dos recursos naturais para a satisfação das necessidades humanas. Este conceito, simplificado, esconde uma realidade cruel: ao passo em que os estoques de capital natural são finitos, e mesmo os recursos “renováveis” possuírem uma capacidade limitada de regeneração, nossas necessidades não param de aumentar, seja pelo crescimento populacional, seja pela elevação do consumo individual. Temos assim um colapso em vista, com um sistema em constante expansão dependendo de outro que possui uma capacidade restrita de atendê-lo.

Já não é novidade que a forma como produzimos e consumimos traz consequências ambientais bastante graves, além dos evidentes reflexos da exclusão, fome, miséria e demais mazelas sociais. Desde a década de 1960 muitas iniciativas têm sido propostas para reduzir os impactos ambientais das diversas atividades humanas, e embora ainda haja um grande desafio a enfrentar, é fundamental reconhecer os avanços já obtidos.

A jornada de melhoria do desempenho ambiental das atividades econômicas já passou por diversas “gerações”, cada uma destas com seus obstáculos. Desde as primeiras leis e criação dos órgãos ambientais, passando pela necessidade de investimentos em equipamentos de controle da poluição, desenvolvimento de procedimentos como o licenciamento ambiental e a avaliação dos impactos de obras e empreendimentos, até as discussões sobre protocolos internacionais e efeitos globais da poluição, muito já ocorreu. Do lado da indústria, já faz algumas décadas que é notória a melhoria de produtos e processos com a aplicação de modelos de gestão ambiental, como os sistemas certificados e a “Produção mais Limpa” (ou eco-eficiência), estratégia que visa conjuntamente melhorias ambientais e econômicas por meio de reduções de desperdícios, revisão de processos e outras ferramentas.

Há, porém, que se destacar que as melhorias até o momento não têm sido suficientes para reverter a trajetória de colapso em nosso sistema econômico. Os indicadores ambientais ainda trazem sérias preocupações com o fornecimento de água, energia, alimentos e diversos materiais usados para as atividades humanas. Mais do que isso, embora muito se tenha caminhado em “como produzir mais com menos”, ainda não se questiona o “quanto” nem o “para quem” se deve produzir. Se a “produção mais limpa” avançou bastante, o “consumo sustentável” ainda é uma realidade distante para grande parte da população.

É neste sentido que se orienta o “ODS 12: Produção e Consumo Responsável”, um dos 17 objetivos do desenvolvimento sustentável propostos pelas Nações Unidas para os próximos 15 anos. Composto de onze metas (veja em http://www.un.org/sustainabledevelopment/sustainable-consumption-production/), muitas voltadas para medidas específicas a serem adotadas por empresas ou governos, este objetivo traz desafios à toda a sociedade, e que não serão facilmente superados. Ao contrário, em muitos casos exigirão mudanças profundas na forma com a qual desenvolvemos nossa economia, mas sem as quais dificilmente se vislumbra um futuro próspero para a humanidade.

Além do evidente foco em reduzir o consumo de água e energia (principalmente das fontes fósseis), bem como o desperdício de alimento, um ponto importante a se destacar em várias destas metas propostas pelas Nações Unidas é o papel da informação. Esta preocupação aparece ao sugerir o desenvolvimento de ferramentas de monitoramento de impactos, o apoio à pesquisa e desenvolvimento científico, o acesso à informação ambientalmente relevante, ou mesmo a divulgação pelas empresas de melhores dados e informações ambientais sobre seus produtos, serviços e instalações.

Se nos anos de 1960 a política ambiental se valeu das estratégias coercitivas aplicadas por governos centrais e fortes; se nos anos de 1970 o movimento social criou demandas por participação pública nos processos decisórios; se nos anos de 1980 e 1990 a evolução se deu pelos sistemas de gestão ambiental e a produção mais limpa; e se nos anos de 2000 foram os efeitos globais da poluição que motivaram as mudanças, agora é a “sociedade da informação” que se impõe.

Mas atuar com informação não é tarefa fácil, a começar por assegurar que esta informação seja de qualidade e que possa ser utilizada para tomada de decisão. Além disso, é bom lembrar que não se trata de possuir “informação”, mas sim em converter a informação em “valor” para o negócio. Por fim, lembrar que atualmente o conceito de “valor”, inclusive ao acionista, não se restringe à indicadores econômicos (como receita bruta, lucro sobre despesas ou dividend yeld). Empresas sólidas e responsáveis também incluem em seus processos decisórios questões como passivos ambientais, relacionamento com stakeholders, questões de gênero, dentre diversos outros aspectos relativos aos impactos sociais e econômicos de suas atividades.

Embora haja uma enorme gama de visões para este futuro, uma certeza existe: as oportunidades estão nos novos modelos de negócio. Não se trata apenas de criar startups, mas de levar às empresas já existentes (muitas de grande porte) formas mais inteligentes, ágeis, modernas e ambientalmente adequadas de fazer negócio. No caso da indústria de bens duráveis, por exemplo, esta não pode mais depender apenas do eterno fluxo de extrair- manufaturar- vender para gerar riqueza, modelo que depende da constante obsolescência ou curta vida útil dos produtos. Já se fala em ter uma “economia circular” e a própria forma das pessoas consumir já começa a ser outra, permitindo relacionamentos de longo prazo, por meio do oferecimento de serviços ao invés de produtos em muitos casos.

Há também que se preparar para novas formas de interação entre os diversos elos das cadeias de produção e consumo, com inclusão de elementos não previstos até o momento. A ampliação da reciclagem dos resíduos em alguns países europeus, para usar um exemplo, já está criando séria concorrência para as empresas de commodities, como as mineradoras – muitas destas já ampliaram suas estratégias de negócio para se tornarem fornecedores de materiais, sejam estes oriundos de uma jazida, dos restos de uma fábrica ou mesmo da coleta seletiva do lixo.

Os tempos estão mudando, a sociedade está mudando, as pessoas estão mudando. É essencial e urgente reinventarmos a economia, com bases mais propícias a estes novos tempos. É disso que se trata o “ODS 12”, trazendo elementos práticos para a importante missão de buscar alternativas para que nossa economia siga oferecendo produtos e serviços que satisfaçam as necessidades humanas, mas de forma mais justa, ampla e que permita a redistribuição dos benefícios da prosperidade entre uma parcela crescente da população.

* Flávio de Miranda Ribeiro é Gerente do Departamento de Políticas Públicas de Resíduos Sólidos e Eficiência dos Recursos Naturais da CETESB – Cia. Ambiental do Estado de São Paulo, além de docente e pesquisador nas áreas de Avaliação do Ciclo de Vida, Produção mais Limpa, Gerenciamento de Resíduos e Regulação Ambiental da Indústria. Também é membro do Grupo de Especialistas em Consumo e Produção Sustentáveis do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA)