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Linha do tempo
Theo Saad
Um olho no passado, outro no futuro. Essa dualidade sintetiza a entrevista concedida pelo historiador Paulo Celso Miceli à Revista da Indústria

Foto: Kênia Hernandes
Miceli: "Nosso processo de industrialização está ligado à independência das economias latinas, incentivada pela Inglaterra, então potência industrial"
Miceli conhece como poucos o desenvolvimento industrial do Brasil. Sabe das dificuldades pelas quais o setor passou para se instalar e se consolidar num país que já era player global na época em que era colônia, quando exportava café, açúcar e minério. E prevê também os desafios que a indústria tem pela frente numa nação democrática que confirmou o status de player global exportando os mesmos café, açúcar e minério e ainda máquinas e equipamentos, aviões, celulares e até chips.

Graduado em história pela Universidade de São Paulo (USP) e doutor pela Unicamp, Miceli analisa a influência dos trabalhadores imigrantes na indústria que engatinhava no Brasil. “Eles trouxeram experiência, mas também o movimento sindical”, afirma. Cita ainda o papel da então onipresente Inglaterra no desenvolvimento industrial do continente sul-americano, em especial do Brasil. “Os ingleses precisavam criar mercado para seus produtos industrializados”, define.

Paulo Celso Miceli, que mora em Bragança Paulista e tem quatro filhos, fala da importância de Roberto Simonsen para o enraizamento da indústria nacional, incluindo a contribuição de uma de suas criações, o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai). O professor destaca os desafios daqui por diante: “Acredito que a chave é o crescimento com inovação, sustentabilidade e responsabilidade social. Para além do discurso”.

Revista da Indústria – O Brasil era uma economia essencialmente agrícola e mineradora até a virada do século 19 para o 20. Foi aí que teve início a industrialização, principalmente graças aos esforços do barão de Mauá. Como foi esse começo da indústria no Brasil?

Paulo Celso Miceli –- Nosso processo de industrialização está ligado à independência das economias latinas, incentivada pela Inglaterra, então a potência industrial. Nessa época, começa a sair recursos da produção agrícola para a industrial, especialmente para a indústria têxtil. Isso acontece principalmente em São Paulo, Rio de Janeiro e alguma coisa no Nordeste, em Alagoas, mas para suprir o mercado interno. Uma característica importante é que a indústria precisa de mão de obra assalariada. De alguma maneira, é atendida pela população local, mas a maioria é de imigrantes, principalmente italianos e alemães.

RI – Como essa população imigrante influenciou o desenvolvimento da indústria local?

PCM –- Eles tinham técnica e experiência por trabalhar na indústria de seus países e trouxeram isso para cá, especialmente as habilitações mecânicas, ou seja, de operação das primeiras máquinas. Mas exportaram também as mobilizações coletivas. Ou seja, eles ajudaram no desenvolvimento porque tinham experiência técnica na indústria, mas criaram o movimento sindical.

RI – O Brasil estava preparado para essa mobilização operária?

PCM – Até hoje, mobilização causa desconforto. Claro que atualmente há a compreensão dos movimentos, entendimento, diálogo. Mas no começo as manifestações eram vistas como distúrbio da ordem estabelecida. Era uma questão de polícia, porque havia a ocupação de espaços públicos, tumultos etc.

RI – Em relação aos demais países que já se industrializavam, a indústria brasileira partiu muito atrás nessa corrida, lado a lado ou tomou a dianteira?

PCM – Em Liverpool e Manchester, nasceram as primeiras fábricas para atender o mercado europeu. Mas o mercado estava só lá. Por isso, os esforços, inclusive militares, da Inglaterra mundo afora e sua influência na América do Sul. Eles queriam criar mercados, porque é disso que a indústria precisa. A questão de atraso ou não atraso da industrialização brasileira é relativa. O Brasil fazia parte da economia mundial, mas como grande fornecedor de matéria-prima. Quando foi a hora de mudar, de passar para uma economia industrial, o Brasil começou o novo caminho.

RI – Quais as principais barreiras para o início do desenvolvimento industrial?

PCM – Havia uma queda de braço entre os produtores internos e os importadores. Um dos primeiros acordos comerciais com a Inglaterra, o de 1810, determinou que os produtos ingleses pagariam menos impostos do que os produtos de Portugal, que era então nossa Metrópole. Um tratado normalmente retrata uma ação de fato, concretiza situações históricas, econômicas e políticas já em vigor. Então, havia essa dificuldade de concorrer com o produto importado. Cito o exemplo da linha de costura, que teve o famoso episódio da fábrica de Delmiro Gouveia, no Nordeste. Os ingleses dominavam esse mercado na América Latina, pagando impostos mais baratos no Brasil, e o Delmiro Gouveia abriu uma fábrica em Alagoas para concorrer. A concorrência foi difícil, até que a fábrica brasileira fechou. Mas aos poucos a indústria brasileira se desenvolveu.

RI – E as guerras, como impactaram esse desenvolvimento?

PCM –
  Elas ajudaram nesse desenvolvimento, especialmente a Segunda Guerra Mundial. Isso porque os conflitos fecharam os canais de escoamento da produção europeia, das exportações para o Brasil, que então teve a obrigação de criar internamente as alternativas. Além disso, em tempos de guerra há avanços tecnológicos que se aproveitam em tempos de paz. Nenhuma guerra é boa, mas há externalidades positivas para a economia.

RI – E na história mais recente, qual foi o marco?

PCM –
Outra tese consagrada é a dos anos JK. Com condições de financiamento, o Plano de Metas de Juscelino Kubitschek, de um jeito ou de outro, contribuiu muito para a industrialização do Brasil.

RI – Como o senhor vê os desafios impostos pela concorrência com a China?

PCM – A China está se projetando assustadoramente no mundo todo. Mas ainda tem uma quantidade imensa de chineses fora do mercado de consumo, produzindo a salários ínfimos tudo aquilo que compramos aqui. A concorrência é injusta, senão desleal. A China não está correndo por fora, mas, sim, por dentro do mercado. Agora estão concorrendo no mercado de automóveis também. Eles pegam o que deu certo em outros países, copiam e vendem nesses mesmos países. A China representa uma virada no capitalismo.

RI – Tem gente que acredita que o Brasil passa por um processo de desindustrialização. Argumentam que as ineficiências da economia são tantas, como altos impostos, financiamento caro, taxação das exportações e dos investimentos, deficiências de infraestrutura etc., que impedem a lucratividade do setor. O senhor concorda com a tese de desindustrialização?

PCM – Essa coisa de voltarmos ao período pré-industrial é balela. Está certo que o agronegócio hoje é muito mais forte no Brasil, mas isso não significa que será sempre assim. O capital vai para onde dá retorno, onde dá dinheiro. Se hoje plantar soja é o que dá dinheiro, o capital vai para o plantio de soja. Depois pode ser de novo a vez da indústria, devido ao crescimento do nosso mercado interno. Não acredito em desindustrialização. Veja nossa indústria aeronáutica, nossa indústria de máquinas e equipamentos. Não são nada tímidas. É claro que têm problemas, mas não dá para pensar em desindustrialização. Não é porque alguns grupos, como o Matarazzo e o Rodolfo Crespi e tantos outros, faliram que outros vão falir também. Os grupos empresariais bem-sucedidos acompanharam a evolução dos tempos, da economia, mudaram. Classifico como quase delírio dizer que há sucateamento da indústria brasileira hoje.

RI – O senhor mencionou dois nomes importantes da indústria paulista e brasileira. Nessa mesma época, início do século 20, também teve atuação destacada Roberto Simonsen, que se tornou patrono da indústria. Qual, em sua opinião, foi a contribuição dele para o desenvolvimento industrial brasileiro?

PCM – A personagem de Roberto Simonsen sempre me chamou a atenção. Até o Caio Prado Junior (um dos mais importantes historiadores brasileiros, autor, entre outros, de Formação do Brasil Contemporâneo) se referiu ao livro de história econômica (A História Econômica do Brasil, em dois volumes, de 1937) escrito por Simonsen como o grande livro sobre o tema. A quantidade de empreendimentos em que Roberto Simonsen sempre esteve presente demonstra a importância dele para a indústria brasileira. Era um homem de um esclarecimento muito grande. Ele dizia que o Brasil precisava de melhor equilíbrio na produção de riqueza interna, ou seja, diminuir a desigualdade social. Numa conferência, Simonsen relatou que sua consciência de desigualdade social no Brasil se deu nos anos 30, quando foi contratado pelo Exército Brasileiro para construir quartéis país afora. Quer dizer, ele já sabia naquela época que, para termos um grande mercado interno, precisamos acabar com a desigualdade. Além disso, ele participou da criação do Senai, que ainda hoje me parece a escola profissionalizante mais consequente do País.

RI – Por falar em Senai, qual a participação da entidade na consolidação da indústria nacional?

PCM – O Senai tem uma inserção fortíssima na indústria nacional e na paulista principalmente. Sempre foi o maior formador de mão de obra qualificada para o setor, que sem isso não teria chegado aonde chegou. Até a década de 1970, o Senai se concentrava nas profissões mecânicas. Depois disso, passou para as de equipamentos eletrônicos, automatizados, que vieram para ficar. Quando a indústria precisou de profissionais ainda mais qualificados, a entidade respondeu positivamente. A principal vantagem dessa escola é que ela pensa no profissional do futuro. O grande esforço é na prospecção, ou seja, saber de antemão quais serão as necessidades da indústria. O Senai não trabalha apenas com as exigências do mercado de trabalho mas também com a atualização dos formadores.

RI – É educação de qualidade?

PCM – Em relação aos sistemas oficiais de educação, o Senai está sempre um passo à frente. Lá os alunos praticam mecânica em carros do ano, enquanto nas escolas oficiais constantemente eles têm de levar as ferramentas de casa. O desafio da mão de obra qualificada se renova a cada instante, e a entidade tem fôlego, recursos e orientação para se antecipar a isso. Eu tenho quatro filhos e dois deles, depois de formados na universidade, foram fazer cursos de atualização no Senai. É por essa razão que a indústria só quer aluno dele.

RI – O caminho da mão de obra para a indústria é o ensino profissionalizante ou ainda há espaço para quem vem da universidade?

PCM – Tem gente que diz que formar para o mercado de trabalho é adestrar. Mas não é isso. Formar para o mercado é dar as ferramentas para aplicar o conhecimento ao trabalho. A pesquisa universitária está longe das empresas. Até porque havia preconceito. Antes, a integração de universidade e empresa era chamada, na academia, de “entregação”. Mas a universidade tem um compromisso com a sociedade de dar retorno ao financiamento. Então, é necessário se aproximar mais do universo das empresas para ficar próxima da vida prática, do dia a dia. A área acadêmica não precisa ser voltada para a economia industrial, mas tem de se aproximar. Tem muito a contribuir e muito a aprender com os setores produtivos. Por outro lado, a escola profissionalizante evoluiu bastante. Dizia-se que o ensino profissionalizante era para evitar que pobre virasse marginal. Hoje é completamente diferente. Vigora a ideia de se transformar em cidadão por meio do trabalho, e o ensino profissionalizante é um excelente caminho para isso. Tem muitos profissionais que vieram do Senai que recebem melhores salários do que quem vem da universidade.

RI – Quais são os desafios da indústria daqui em diante?

PCM – Como historiador, prefiro adivinhar o passado (risos). Mas acho que o grande desafio agora é continuar diminuindo a desigualdade social. Se a pessoa só tiver 1 real no bolso, nada vai fazer com que ela gaste em outra coisa senão em comida. Agora, se ela tiver mais, vai comprar outras coisas. Esse é o mercado da indústria. Vejo com bons olhos a preocupação do setor com o meio ambiente, com a percepção de que não é preciso sacrificar o futuro para ganhar dinheiro hoje. Acredito que a chave é o crescimento com inovação, sustentabilidade e responsabilidade social. Para além do discurso.