A Fiesp, em 2009, participou de todos os temas de interesse da indústria e da sociedade. E em 2010 não será diferente

Paulo Skaf: "Temos debatido questões de interesse paulista e nacional. As parcerias entre a Fiesp e os governos acontecem, beneficiando a sociedade, o nosso estado e o Brasil". |
O ano de 2009 será para sempre atípico, a ser lembrado ou esquecido por muitas razões entre elas a maior instabilidade econômica da história mundial decorridos 80 anos. O Brasil foi o último país a entrar na crise e o primeiro a sair dela. Estamos vivendo um momento positivo. Entretanto, há muito que fazer para assegurar o futuro de prosperidade com que todos sonhamos.
Nesse cenário, a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) viveu um 2009 igualmente muito especial. Enfrentou a crise desde o primeiro momento propondo soluções viáveis (muitas delas adotadas pelo governo); não parou de trabalhar nas múltiplas frentes que são temas de seus conselhos superiores e departamentos; e investiu pesado em educação, cultura, saúde, esportes e lazer no Sesi e no Senai de São Paulo. Fez a diferença.
Os resultados em 2009 foram inúmeros e positivos, como são as perspectivas para 2010. Paulo Skaf, presidente da Fiesp, nesta entrevista exclusiva à Revista da Indústria, fala sobre o ano que acabou e o que vai começar. Faz um balanço dos erros e dos acertos e desenha, sem apelar à futurologia, o que poderá estar no horizonte. Comenta, inclusive, sobre as próximas eleições e a sua possível participação na vida política de São Paulo e do Brasil.
Revista da Indústria - Que resumo o senhor faz da atuação da Fiesp neste 2009?
Paulo Skaf - Os resultados foram muito positivos. A Fiesp esteve sempre presente em todos os temas que exigiram uma posição firme na defesa dos interesses não apenas da indústria paulista mas, em especial, de toda a sociedade brasileira. Foi assim na busca de medidas concretas e viáveis para o enfrentamento da crise; na luta pela redução dos juros básicos da economia e do spread bancário; na revisão das tarifas de gás natural cobradas a mais do contribuinte; no fomento ao crédito; no duro posicionamento contra a criação de novos impostos; na promoção da importante indústria da defesa; na busca de uma produção limpa, protegendo o meio ambiente; no combate às ações protecionistas da Argentina; e na ampliação da presença do Brasil no mercado internacional. Sem falar, é claro, de outras tantas ações em múltiplas frentes e, ainda, do que a Fiesp também realizou nas áreas da educação, saúde, cultura, esportes e lazer no Sesi e no Senai de São Paulo.
RI - E na área de relações trabalhistas diante da crise, quais medidas foram tomadas?
PS - Já no final do ano passado e início de 2009, estimulamos que houvesse imediato e amplo entendimento entre empresários e trabalhadores para evitar demissões em razão da crise. Isso resultou em acordos que mantiveram muitos empregos nos vários segmentos da produção. Foram abertas ainda possibilidades para os trabalhadores fazerem cursos do Senai de São Paulo nas horas ociosas em razão desses mesmos acordos. Assim, também promovemos a reciclagem e o aumento da capacitação. Ou seja, muitos trabalhadores &O1630; embora com alguns sacrifícios &O1630; mantiveram seus postos de trabalho e evoluíram na carreira mesmo em plena crise.
RI - Qual o balanço das atividades da Fiesp nas relações internacionais, no comércio exterior?
PS - Além de promover inúmeros eventos de promoção comercial e, também, cultural, recebemos a visita de vários chefes de Estado encabeçando missões empresariais que resultaram em concreto aumento das exportações da indústria brasileira. Estiveram na Fiesp em 2009 a presidente da Argentina, Cristina Kirchner; Michelle Bachelet, do Chile; Mauricio Funes, de El Salvador; Shimon Peres, de Israel; Álvaro Uribe, da Colômbia; e vários primeiros-ministros e representantes de governos da África, Índia, Itália, entre outros. O presidente Lula despachou na Fiesp por cinco vezes nesses encontros com missões empresariais estrangeiras, incentivando as nossas ações na ampliação do mercado externo para os produtos brasileiros e, ainda, delegou-nos a chefia de algumas missões brasileiras ao exterior.
RI - É possível afirmar que a Fiesp e o governo federal têm um bom diálogo? Em que proporção isso é importante para o desenvolvimento do País?
PS - Mantendo independência institucional e liberdade de pensamento crítico, travamos com o governo federal &O1630; e, de resto, com todas as demais administrações públicas (estadual e municipais), de todos os partidos e tendências políticas &O1630; um permanente e produtivo diálogo. Com esse entendimento, temos debatido as grandes questões de interesse não apenas paulista mas também nacional, e as parcerias entre a Fiesp e os governos acontecem beneficiando a sociedade, o nosso estado e o Brasil.
RI - A que o senhor credita a deferência do presidente Lula ao, constantemente, propor que encontros internacionais, com primeiros mandatários de outros países, sejam realizados aqui em São Paulo, na Fiesp, e vir participar deles?
PS - Exatamente à seriedade e qualificação de nossos encontros de trabalho dessa natureza, que, como já disse, agregam inconteste valor ao desempenho do comércio internacional brasileiro. Quando exportamos mais, por consequência também produzimos mais, empregamos mais, crescemos mais. E o presidente Lula tem como prioridades esses pontos desde o início de seu primeiro governo.
RI - Como o senhor analisa a contribuição da Fiesp no fortalecimento das relações bilaterais do Brasil com os demais países em todos os continentes?
PS - Uma das áreas mais dinâmicas da Fiesp é a de relações internacionais e comércio exterior. A discussão madura e técnica entre países, princípios que buscamos nos nossos encontros internacionais, contribui para a melhoria da corrente comercial brasileira com seus tradicionais -- e novos -- parceiros em todo o mundo. Podemos dizer que atuamos como uma verdadeira embaixada de negócios, já que praticamos diplomacia empresarial. No exercício permanente dessa atividade, ampliamos os horizontes do relacionamento comercial brasileiro com países que, no passado, não estavam entre nossas pretensões de negócios.
RI - 2009 foi, nitidamente, um período de recuperação econômica. Como o senhor analisa o desempenho industrial do Brasil neste ano?
PS - O pior já passou. No entanto, a indústria foi o setor mais atingido pela crise internacional, com maior reflexo nas empresas exportadoras. O ritmo de recuperação está excelente, embora possa haver alguma atenuação. Com isso, sua recuperação será a mais lenta entre todos os segmentos. A verdadeira retomada da atividade industrial só ocorrerá em 2010, quando o PIB deverá crescer em torno de 6%, influenciado pela demanda interna, que está reagindo bem, e por um cenário externo também menos adverso.
RI - Fechamos 2009 ainda com a possibilidade da aprovação da Contribuição Social para a Saúde (CSS). A sociedade tem como absorver mais um imposto?
PS - Esse tipo de tentativa já foi repudiado por toda a sociedade brasileira ao derrubar a absurda tentativa de recriação da CPMF, no final de 2007. O problema da saúde no Brasil é muito mais de gestão do que de dinheiro. Os recursos empenhados para essa importante área no orçamento do governo nem sempre são usados na sua totalidade.
RI - Como o senhor analisa a decisão do governo federal na exploração e gerenciamento do pré-sal, uma das reservas de riqueza do País?
PS - Devemos evitar movimentos de estatização no País. No dia em que a Petrobras operar 100% dos blocos, poderá haver, por parte da empresa, uma acomodação, prejudicando assim o desenvolvimento tecnológico do setor. É preciso ter, pelo menos, 20% dos blocos nas mãos de seus sócios para que a Petrobras continue aperfeiçoando processos, investindo em pesquisas e tecnologia.
RI - O senhor sempre combateu os altos níveis da taxa básica de juros, a Selic. Que balanço o senhor faz da trajetória de queda dos juros registrada durante 2009?
PS - Foi positiva, apesar do ritmo um tanto lento. A Fiesp já provou com estudos técnicos que há condições de baixar, sem consequências malévolas para a economia, a taxa básica de juros a valores bem menores que os atuais 8,75% ao ano. Entretanto, o que mais preocupa é que, mesmo com a Selic, hoje, em seu patamar mais baixo da história do País, os juros do crédito não seguiram a mesma tendência por causa do alto spread cobrado pelos bancos privados. O crédito ainda está muito caro e sem justificativa plausível. O governo precisa fazer alguma coisa.
RI - O que o mercado e o governo podem fazer para pressionar a queda dos spreads dos bancos privados?
PS - Os bancos públicos atenderam aos nossos reclamos e reduziram em até 30% os spreads. Mas, os bancos privados não acompanharam essa positiva conduta. No entanto, o mercado começa a se equacionar. As autoridades monetárias devem seguir atentas e coibir eventuais abusos.
RI - Qual o grande desafio do Brasil para o próximo ano, marcado por eleições? Há perigo de o resultado impactar a economia?
PS - O Brasil atingiu um patamar de maturidade política. Diferentemente de outras épocas no passado, as eleições de 2010 não devem ter um significativo impacto na economia do País. Seja quem for o próximo presidente, deverá manter o que se construiu até agora e, se possível, melhorar o cenário ainda mais. O nosso desafio é aproveitar a grande oportunidade de ter sido o primeiro país a sair da crise internacional e investir mais em educação, saúde, segurança, infraestrutura, pesquisas e inovação, enfim, no desenvolvimento, para, então, conquistar novos e maiores espaços no mercado mundial. O Brasil deixou de ser o país do futuro. Agora é o país do presente.
RI - Como o senhor analisa as políticas monetária e cambial do governo?
PS - Apesar de termos sido críticos da política econômica do governo, não podemos ignorar que o País conseguiu controlar a inflação, reduziu os juros -- embora estejamos convencidos da possibilidade de quedas maiores --, incentivou a produção com o corte de impostos em alguns setores, revertendo, assim, o processo recessivo de maneira rápida. Quanto à taxa de câmbio, ela continua apreciada, prejudicando o exportador brasileiro. Mas, a solidez da economia brasileira, bem como a exploração e produção do petróleo na camada pré-sal, situa o Brasil como um destino seguro para investimentos estrangeiros. Com o aumento da entrada de dólares no País, a tendência é o real se apreciar ainda mais. Para manter o câmbio flutuante e evitar que isso seja prejudicial à produção, o governo deve, urgentemente, criar políticas compensatórias, como acabar com o acúmulo de créditos tributários de ICMS e Pis/Cofins e devolver outros impostos que ainda oneram o produto exportado. Além disso, tem de fazer as reformas, estimular a pesquisa e o desenvolvimento, visando tornar nossa economia mais competitiva no mercado internacional.
RI - O que devemos reivindicar aos candidatos à Presidência da República? Que comprometimentos eles devem ter com a sociedade para o bem do Brasil?
PS - Além de ética e muito trabalho, o que é normal exigir, é fundamental que eles se comprometam com a realização das reformas logo no primeiro ano de governo. O Brasil não pode preterir mais as reformas política, fiscal, trabalhista, previdenciária. Com o peso do resultado das urnas, no primeiro momento do exercício de seu mandato, o novo presidente terá condições para realizar essas reformas e atender a uma legítima e importante necessidade do Brasil.
RI - No âmbito do Sesi e do Senai quais foram os destaques?
PS - Sem dúvida, a ampliação do ensino nas centenas de escolas do Sesi de São Paulo, criando o curso médio e implantando o ensino integral (a criança e o jovem passam o dia todo na escola, com saúde, alimentação e práticas culturais e esportivas); investimentos na reforma e construção de novas escolas e também no esporte de rendimento, formando equipes (algumas já campeãs) de vôlei masculino e polo aquático, entre outras. E na área cultural, destacam-se além de centenas de espetáculos teatrais, exibições de cinema, música e artes plásticas, a criação da Orquestra Bachiana Jovem, sob a regência do maestro João Carlos Martins. No Senai, alcançamos o recorde de 1,1 milhão de matrículas em cursos de formação de mão de obra, realizamos a modernização e atualização tecnológica da rede de ensino e, por fim, ampliamos os cursos superiores de tecnologia dando maiores chances ao jovem que deseja buscar uma carreira, com reais oportunidades de mercado, para o futuro emprego.
RI - Quanto foi investido até agora na construção e modernização de escolas Sesi e Senai? O senhor está realmente convencido de que o futuro do País passa pela educação?
PS - O trabalho que estamos realizando transcende a educação e abrange a responsabilidade social, porque soma práticas de saúde, cultura, esporte e lazer para a comunidade em geral. É por inabalável crença no futuro e respeito à sociedade que estamos presentes nas soluções das grandes questões da realidade educacional brasileira. Por isso, o investimento forte que estamos fazendo na modernização e construção de escolas do Sesi e do Senai de São Paulo. De 2008 ao final deste ano, as destinações orçamentárias nessas instituições somam mais de R$ 723 milhões. Até o final de dezembro inauguraremos 40 das 100 novas escolas programadas. Em nossa visão, educação é preparação ampla para a vida.
RI - Especificamente no esporte já que o Brasil vai sediar nos próximos anos dois importantes eventos mundiais, a Copa do Mundo e a Olimpíada , quais são os destaques no trabalho realizado em 2009?
PS - Aplicamos recursos na adequação da estrutura de nossos centros esportivos, com o aquecimento de 40 piscinas e a construção de 41 campos de futebol society no estado. Estamos implantando o esporte de alto rendimento. Montamos o time de vôlei com atletas campeões do mundo, comandado pelo Giovane Gávio. Em seis meses de existência, o time já conquistou dois campeonatos disputados no estado. Outro destaque foi a equipe de polo aquático, que voltou campeã do torneio mundial no Havaí (EUA). Foi a primeira vez que uma equipe do Brasil conquistou esse importante torneio internacional. E há, ainda, muitas outras modalidades nas quais estamos formando atletas para o futuro.
RI - A Fiesp tem contemplado, de maneira recorrente, questões que excedem o âmbito da indústria. Por quê?
PS - A Fiesp pensa e trabalha o Brasil. Não existe desenvolvimento sem educação integral de qualidade, sem marcos regulatórios claros e justos, sem uma política monetária que fuja à perversidade de uma conduta fiscal fora da realidade do País. Por isso, a nossa atuação não poderia ser parcial, sectária. Representamos quem trabalha pelo Brasil, portanto tratamos dos assuntos que são do interesse maior da sociedade brasileira.
RI - O senhor acaba de filiar-se a um partido político e o seu nome é cogitado como alternativa ao governo do estado de São Paulo nas próximas eleições. O senhor pretende um futuro também na política?
PS - Nunca fui filiado a nenhum partido político. Desde quando exerci, por seis anos, a presidência da Abit e do Sinditêxtil, e também nesses cinco anos como presidente da Fiesp, venho sendo honrado com convites de vários partidos para ingressar em seus quadros. Em junho passado, depois de refletir bastante, filiei-me ao Partido Socialista Brasileiro (PSB). Meu objetivo é ampliar minha atuação no campo da cidadania. Não adianta apenas reclamar, cabe também participar e promover as mudanças que sonhamos e que a sociedade reclama. Devemos, em todas as frentes possíveis, trabalhar para o desenvolvimento do Brasil. A decisão de ser ou não candidato a algum cargo político passa pela vontade também do PSB e, portanto, só acontecerá por volta de março de 2010. Até lá a minha dedicação continua sendo à Fiesp, ao Ciesp, ao Sesi, ao Senai e ao IRS. E sempre em defesa dos interesses maiores do País.