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A hora do crédito

por Klaus Kleber*

Presidente da Nossa Caixa garante que a instituição trabalha para ampliar a concessão de crédito às empresas em condições competitivas


Demian Fiocca, presidente da Nossa Caixa: "Nosso objetivo é atender às necessidades de fluxo de caixa de 100 mil empresas localizadas, principalmente, no estado de São Paulo"

O crédito à pessoa jurídica é a prioridade do economista Demian Fiocca, presidente do Banco Nossa Caixa, sob o controle do Banco do Brasil desde o ano passado. Sem descuidar do nicho da pessoa física, sendo a Nossa Caixa uma das líderes na área de crédito consignado, Fiocca considera o principal desafio da instituição a expansão do crédito às empresas, como forma de gerar empregos e renda. A meta é fechar o ano com um aumento de 50% nas operações de crédito. “Vemos o futuro com otimismo e estamos trabalhando não só para atender às necessidades atuais mas com a perspectiva dos próximos dois ou três anos”, diz ele. Com experiência no setor privado (Telefônica e HSBC) e no setor público, tendo sido secretário de Assuntos Internacionais do Ministério do Planejamento e presidente do BNDES, Fiocca considera estimulante fazer a Nossa Caixa “se abrir mais” e tem promovido encontros com a comunidade empresarial paulista, dos quais já resultou a concessão de linhas de crédito em condições especiais às empresas associadas à Fiesp.

Revista da Indústria – O Banco Nossa Caixa apresentou um crescimento semestral de 23,3% nas operações de crédito, passando de R$ 13,8 bilhões para R$ 17 bilhões, o que deu uma boa ajuda para que o Banco do Brasil voltasse a figurar como o maior banco do País. Qual a meta de expansão das operações de crédito do banco este ano?

Demian Fiocca – A evolução de R$ 3,2 bilhões na carteira de crédito da Nossa Caixa no primeiro semestre, contabilizada em seus ativos, deu ao BB a vantagem necessária (de R$ 2,4 bilhões no total de ativos) para ultrapassar o Itaú-Unibanco, tornando-se, assim, o primeiro do ranking. O BB somou R$ 598,8 bilhões em ativos, enquanto o Itaú-Unibanco contabilizou R$ 596,4 bilhões. A Nossa Caixa busca fechar o ano com crescimento de 50% no crédito. Vemos o futuro com confiança e estamos trabalhando voltados não só para atender às necessidades atuais mas com a perspectiva de crescimento da economia nos próximos dois ou três anos.

RI – Qual passou a ser o foco principal com a retração do crédito depois de setembro do ano passado?
DF –
A expansão do crédito às pessoas jurídicas. A Nossa Caixa sempre foi caracterizada por ser um banco voltado para pessoa física. Não vamos deixar esse nicho, é claro, mas a nossa estratégia tem sido orientada para dar uma contribuição mais efetiva para o desenvolvimento da economia, de acordo com a política econômica do governo, de modo a fortalecer as empresas, proporcionar mais empregos e renda.

RI – Existe espaço para isso?
DF– Há um grande potencial a ser explorado e grandes oportunidades a aproveitar, dada a capilaridade de nossas agências, presentes em todos os municípios do estado de São Paulo. Já avançamos muito na área da pessoa física em termos de financiamentos. O que é preciso agora nessa área é agregar mais tecnologia. Isso sem prejuízo da prioridade que estamos dando ao crédito às pessoas jurídicas, baixando as taxas de juros cobradas das empresas clientes e ampliando os prazos dos financiamentos. A margem é menor, mas podemos ganhar em volume.

RI – Os bancos públicos estão assumindo muitos riscos, o que pode se refletir em inadimplência, enquanto os bancos privados aumentam as suas provisões para devedores duvidosos...
DF – Primeiro, é preciso dizer que os bancos públicos também têm feito provisões adequadas para devedores duvidosos. Ocorre que os bancos privados, depois de uma grande expansão do crédito nos últimos anos, deram uma freada. Os bancos públicos, pelo contrário, expandiram o crédito no período de retração da economia. Quanto à inadimplência na Nossa Caixa, nunca foi muito significativa, pois operamos no crédito consignado (desconto em folha). No segundo trimestre deste ano, a nossa taxa de inadimplência caiu de 4,4% para 4,0%, enquanto na média do mercado subiu de 3,6% para 4,4%. A inadimplência foi mais pronunciada no que diz respeito ao estoque de crédito acumulado até setembro. De lá para cá, a tendência é de queda.

RI – O senhor prevê uma reversão da postura dos bancos privados quanto à expansão do crédito?
DF – Acredito que, a partir deste segundo semestre, os bancos privados vão também aumentar de modo significativo a oferta de crédito a seus clientes, não só por motivos concorrenciais mas porque as condições do mercado melhoraram.

RI – A ata do Comitê de Política Monetária (Copom), da reunião de 21 e 22 de julho, faz prever que a taxa básica de juros vai permanecer em 8,75% a.a. até o fim deste ano. Qual a sua visão?
DF – Não me arrisco a prever as decisões do Copom, que vão depender de muitas circunstâncias.

RI – Mas os “spreads” do sistema bancário privados deverão baixar, acompanhando a tendência dos bancos públicos?
DF – Não posso também dizer o que farão os bancos privados. O que se constata é que hoje há um clima de mais confiança no mercado quanto à evolução da economia e que os bancos em geral têm apresentado balanços sólidos.

RI – Qual foi a redução das taxas cobradas pela Nossa Caixa, particularmente para as micro, pequenas e médias empresas?
DF – Foi substancial, e as nossas taxas estão entre as menores do mercado. Em março, com o lançamento do Giro Nossa Caixa Flex, para as micro, pequenas e médias empresas, as taxas de juros prefixados, que variavam entre 3,34% e 4,30% ao mês, no máximo, com prazo de dois a 12 meses, caíram, em julho, ficando entre 1,55% a 1,80% ao mês. Ampliamos também os prazos. Para pagamento no período de 13 a 24 meses, a taxa foi fixada em 1,70% ao mês e, para o prazo de 25 a 36 meses, é de 1,80% ao mês.

RI – Houve novidade para capital de giro?
DF–Também reduzimos os juros. Nas operações até 12 meses, a taxa máxima foi de 4,30% para 3,61% ao mês. Para pagamento em prazos de 13 a 24 meses, houve uma diminuição de juros de 4,70% para 3,92% ao mês. Há um prazo de carência da primeira parcela de 180 dias. Quem passou aperto – e muitas empresas passaram -- tem um período de folga para ajustar-se. O cliente também pode fixar a data de vencimento das parcelas.

RI – Qual a disponibilidade de recursos para a linha destinada às empresas de menor porte?
DF – A Nossa Caixa disponibilizou R$ 1,5 bilhão adicional para empréstimos a micro, pequenas e médias empresas por meio da linha Giro Nossa Caixa Flex. Nosso objetivo é atender às necessidades de fluxo de caixa de 100 mil empresas localizadas, principalmente, no estado de São Paulo. As operações de baixo risco representam a maioria das concessões de crédito nessa modalidade de capital de giro, uma vez que 84,9% dos limites de crédito estão nessa faixa.

RI – O banco tem parceria com a Fiesp para a concessão de crédito para as pequenas e médias empresas?
DF – Seguindo a estratégia de ampliar nossos negócios na área de pessoas jurídicas, tive uma primeira reunião com Paulo Skaf, presidente da Fiesp, e com o ex-ministro da Agricultura Roberto Rodrigues. A Nossa Caixa oferece, na área das micro, pequenas e médias empresas, linhas de crédito em condições especiais e vantagens exclusivas para as empresas associadas à Fiesp. As linhas de crédito disponíveis para o Programa Crédito Empresarial podem ser contratadas com taxas pré ou pós-fixadas, que variam de acordo com as garantias oferecidas. O valor do limite máximo do programa por cliente é de R$ 200 mil.

RI – Como a Nossa Caixa opera conjuntamente com o Banco do Brasil?
DF – Utilizamos o software do BB para avaliação de riscos de crédito, de acordo com critérios técnicos mais apurados. Temos um acordo operacional com o BB, que é líder na área de agronegócio. No estado de São Paulo, participamos do plano de safra, administrado pelo BB, e atuamos em outras linhas de crédito. Na área de fundos, a Nossa Caixa agregou, em junho, 36 fundos de investimento do Banco do Brasil, administrados pela BB-DTVM. Com isso, foram ampliadas de 11 para 47 as opções de fundos disponíveis aos clientes pessoa física e jurídica. A Nossa Caixa dá uma força também à BB-Veículos, tendo lançado há pouco seu seguro. Nos últimos dez dias, vendemos de 150 a 200 apólices por dia. A média diária anterior era de 70.

RI – Chegou-se a anunciar que a marca da Nossa Caixa iria desaparecer, mesclando-se à do Banco do Brasil. Houve alguma mudança a esse respeito?
DF – Essa questão não está definida. A Nossa Caixa é parte de um grupo maior, que é o Banco do Brasil. Gostamos de dizer que trabalhamos em São Paulo com a força do Brasil. Somos um banco federal e, naturalmente, os clientes lucram com isso. Com o cartão da Nossa Caixa, eles podem sacar e obter extratos em toda a rede do BB, ou seja, em 40 mil caixas automáticos em 70% dos municípios do País.

RI – Quantos funcionários e agências tem a Nossa Caixa? A superposição de agências tem sido um dos problemas para a incorporação ao BB?
DF – Temos 14,2 mil funcionários e 564 agências, 381 postos de atendimento. Quando foi examinada a adequação estratégica entre o BB e a Nossa Caixa, verificou-se que havia superposição de agências em apenas 30 casos, o que é insignificante. Em vista disso, a opção foi não fechar nenhuma agência. Temos o próprio fundo de pensão – o Economus --, desvinculado da Previ, do BB.

RI – No primeiro trimestre, como foi divulgado, os ajustes contábeis no balanço causaram perda à Nossa Caixa. Como está a situação agora?
DF – Ajustes de R$ 155,1 milhões ao plano de contas do BB e aumento de provisões em R$ 136,2 milhões para demandas judiciais relativas a planos econômicos levaram a Nossa Caixa a registrar perdas de R$ 139,6 milhões no segundo trimestre. O banco, porém, teve um lucro líquido de R$ 89,9 milhões no período.

RI – A Nossa Caixa é muito atuante nas linhas de crédito do BNDES, que o senhor conhece bem, como ex-presidente daquela instituição?
DF – Fomos o quarto banco a aderir ao cartão BNDES, depois da Caixa Econômica Federal, o Banco do Brasil e o Bradesco. O cartão, com a bandeira Visa, está disponível desde 31 de agosto, com taxa de juros de 0,97% ao mês, para a compra de 100 mil bens de produção listados no portal do BNDES. As compras podem ser parceladas em prazos de três a 48 vezes. A expectativa da Nossa Caixa é negociar 5 mil cartões até dezembro deste ano.

RI – Além do cartão, quais outras linhas estão à disposição das empresas?
DF –
Oferecemos outras linhas de crédito conveniadas com o BNDES: a BNDES-PSI, que dá acesso às linhas de crédito do Finame e BNDES Automático, destinada à aquisição de máquinas e equipamentos, incluindo ônibus e caminhões, com juros a partir de 4,5% ao ano. Essas linhas devem atender empresas de todos os portes. O valor mínimo financiável é de R$ 30 mil e o máximo é de 100% do valor do bem a adquirir, para as empresas de menor porte e de 80%, em se tratando de grandes empresas. Há também o PEC BNDES para capital de giro, com taxas de juros que variam de 12,10% a 16,43% ao ano. Na Nossa Caixa, podem ser financiadas operações até R$ 500 mil. O valor máximo está limitado a 20% da receita operacional da empresa no ano anterior, com limite de R$ 20 milhões. O prazo para pagamento é de 36 meses, com 12 meses de carência. Vale mencionar ainda o PSI Agrícola, para investimento de empresas, associações e cooperativas de produtores, com taxa de juros de 4,5% ao ano.

RI – Segundo foi noticiado, essas linhas a juros pouco acima da taxa de inflação corrente são emergenciais.
DF – Sim, os pedidos têm prazo. As linhas BNDES PSI e PEC BNDES estarão em vigor até 31 de dezembro deste ano. Para que haja tempo para análise pelo BNDES, as propostas de crédito precisam ser protocoladas pela Nossa Caixa banco de fomento até 30 de novembro para a linha PSI e até 20 novembro para a linha PEC.

RI – A Nossa Caixa já atua no crédito imobiliário. A área tende a crescer muito com o programa Nossa Casa, Nossa Vida?
DF – Estamos começando. Na primeira fase, o crédito é direcionado às empresas construtoras e, somente depois, é que serão financiados os compradores. Até agora, já fornecemos crédito para a construção de mil residências. O saldo dessas operações, ao fim do primeiro semestre, é de R$ 796,8 milhões. Nos últimos 12 meses, o crescimento dessa carteira foi de 37,2%.

RI – De acordo com as condições da compra da Nossa Caixa pelo Banco do Brasil, a folha de pagamento dos funcionários públicos é depositada na Nossa Caixa. Isso impulsiona os negócios do banco?
DF – Certamente. Até 2012, a folha de pagamento do Estado é paga por meio da Nossa Caixa. Isso, naturalmente, amplia a nossa base de negócios, pois hoje temos 5,6 milhões de clientes. No primeiro semestre, o volume de depósitos era de R$ 37,8 bilhões, com crescimento de 3,2% no segundo trimestre. Os depósitos judiciais chegaram a R$ 18,8 bilhões.

RI – E o crédito consignado?
DF – Essa base facilita também a operação nessa área, que é um dos nossos fortes. Além de adquirir, no segundo semestre deste ano, R$ 2,9 bilhões em carteiras de outras instituições financeiras, passamos a oferecer, a partir de maio, uma linha de crédito consignado para aposentados e pensionistas do INSS. O volume de empréstimos com desconto em folha de pagamento cresceu 48,2% no segundo trimestre em comparação os primeiros três meses deste ano. Nos últimos 12 meses, o crescimento foi de 132%. Com um saldo de R$ 9,5 bilhões ao fim de junho, esse segmento representou 68,1% do total de crédito para a pessoa física e 55,9% da carteira de crédito do banco.

RI – A Nossa Caixa tem alguma novidade no forno?
DF –
Estamos começando uma iniciativa de grande envergadura, que é o oferecimento a nossos clientes de cartões com chips, das bandeiras Visa e Mastercard. Isso significa a troca de nada menos do que 2,5 milhões de cartões. Uma das características da Nossa Caixa atualmente é a contínua modernização tecnológica.

*Colaborador